Quando a gamificação vira tradição: o compliance que as pessoas jogam por vontade própria

Isabela Silveira, Liderança de Compliance do Grupo Autoglass, encontrou três colaboradores reunidos no centro de educação corporativa da empresa jogando no celular. Eles discutiam os próprios erros nos dilemas do jogo de compliance

A cena é resultado da estratégia do compliance do Grupo Autoglass vem construindo há anos e que já chegou ao terceiro jogo desenvolvido com a i9Ação. No segundo episódio do Papo Play Compliance, Isabela e Amanda Siqueira, analista de Compliance da empresa, contaram como transformaram o engajamento e a cultura de compliance ao longo dessas três experiências, e o que aprenderam entre uma e outra.

A conversa foi conduzida por Fernando Seacero, CEO da i9Ação e criador da Metodologia de Bioaprendizagem.

Vá direto ao ponto: Índice do episódio

Clique no minuto para assistir ao trecho mais interessante para você:

  • 00:00 Começa o Episódio 2 do Papo Play Compliance
  • 01:47 Quando a gamificação vira tradição: o tema do episódio
  • 02:11 “E se o Compliance deixasse de ser obrigação para virar jogo?”
  • 03:07 O cérebro em três camadas (Neurociência aplicada)
  • 03:39 Cérebro reptiliano: ranking, pontos e missões
  • 03:55 Cérebro límbico: emoção, memória e conexão
  • 04:43 Neocórtex: por que o conteúdo personalizado muda tudo
  • 06:51 Quem é o Grupo Autoglass
  • 07:55 Apresentação de Isabela Silveira e Amanda Siqueira
  • 08:35 Do call center ao Compliance: a trajetória de Isabela
  • 10:27 “O que me atraiu no Compliance foi parecer com polícia”
  • 11:15 Do Acre ao Espírito Santo: a trajetória de Amanda
  • 14:59 Como surgiu a ideia de gamificar o Compliance
  • 15:15 “Não li, não aceitei, mas cliquei como qualquer pessoa faria”
  • 17:43 O desafio de alcançar lojas espalhadas pelo país
  • 18:31 O que ainda acontece quando alguém diz que é do Compliance
  • 19:19 A terceira gamificação: o game Heróis da Integridade
  • 21:03 O engajamento no horário de almoço
  • 22:39 Acessibilidade: quem não usa computador também joga
  • 23:43 Como o jogo democratiza temas de contratos e fornecedores
  • 25:59 [DEMONSTRAÇÃO] A interface do game Heróis da Integridade
  • 27:27 As fases do jogo e a mecânica de desafios
  • 29:27 Como o jogo ativa os três cérebros na prática
  • 30:31 O conselho de Isabela: vá para a área de negócio
  • 32:07 A história da pipoca: entender a dor antes de dizer não
  • 33:51 “O Compliance não deveria ser a área que sempre diz não”
  • 34:39 Quanto tempo dura o jogo e como aplicar na Compliance Week
  • 35:43 Como os conteúdos do game são construídos
  • 36:23 Qual é o principal desafio do Compliance hoje
  • 36:55 Engajar a liderança: por que ela é a peça-chave
  • 40:19 Comunicação interna: preparar o terreno antes da ação
  • 41:43 O que facilita o relacionamento com as lideranças
  • 42:23 Compliance como solução: reduzir risco e prejuízo
  • 43:51 Case: quando o canal de ética virou plano de ação
  • 46:15 Do controle à corresponsabilidade
  • 47:03 [DEMONSTRAÇÃO] A versão Tabuleiro do jogo
  • 49:19 Compliance com fornecedores e rede credenciada
  • 52:47 O futuro: avaliação de risco somada à cultura
  • 54:23 “Não deixem que o Compliance seja só cumprimento de lei”
  • 55:59 Agradecimentos e encerramento

O que gera engajamento em compliance de verdade

Antes de passar a palavra às convidadas, Fernando explicou a base dos jogos da i9Ação: a Bioaprendizagem, metodologia própria da empresa que aplica ao aprendizado corporativo o modelo dos três sistemas do cérebro, popularizado pelo neurocientista Paul MacLean.

A ideia é que um jogo bem construído estimule as três camadas para melhorar aprendizagem e engajamento:

  • Sistema Reptiliano: ativado por ranking, pontos, missões e tempo. Tudo o que exige ação e impede a pessoa de ficar parada.
  • Sistema Límbico: ligado à emoção e à memória. Acionado por cores, música, diversão, conexão social e disputa entre jogadores.
  • Neocórtex: a parte racional, estimulada pelo desafio estratégico e, principalmente, pelo conteúdo personalizado.

Sobre o Límbico, Fernando usou uma imagem que qualquer pessoa reconhece: aquele professor que emocionava a turma na escola.

“Às vezes a matéria dele nem era a mais interessante, mas a emoção fazia o conteúdo grudar”.

Sobre o Neocórtex, destacou o papel da personalização: a diferença entre entrar num treinamento genérico e reconhecer ali uma situação do próprio dia a dia. Nas palavras dele, não pode ser “uma experiência de prateleira”.

O que define o jeito como trabalham o compliance

As duas convidadas migraram de área na empresa para chegar à área de compliance.

Isabela se formou em Direito e estudava para concurso quando entrou na Autoglass como agente de atendimento no call center. Virou liderança da operação, conheceu o compliance por dentro e decidiu abrir mão do cargo para recomeçar como analista. Hoje lidera a área.

O que a atraiu tem uma ironia que ela mesma faz questão de apontar:

“O que me atraiu no compliance foi parecer com polícia. Eu estava estudando para ser investigadora e percebi que podia ser investigadora dentro da empresa. E agora estou completamente contra tudo que eu pregava: estou tentando fazer o compliance ficar menos polícia.”
— Isabela Silveira, Liderança de Compliance

Amanda veio do Acre, também formada em Direito, com dois anos de atuação no judiciário. Mudou de estado decidida a trocar de carreira e entrou no Grupo Autoglass pela equipe comercial, onde ficou três anos antes de migrar para o compliance. Hoje atua com análise de contratos e conformidade, além da frente de inovação da área.

“A parte mais legal da cadeira do compliance é as pessoas não terem mais medo da gente.”
— Amanda Siqueira, Compliance

O game que virou a chave antes mesmo de ela trabalhar na área

Amanda viveu isso do outro lado, quando ainda era do comercial. Nas palavras dela, o comercial é “historicamente arqui-inimigo do compliance”.

Ela foi obrigada a comparecer a um evento interno esperando “uma palestra sobre o que eu não posso fazer”. Encontrou um labirinto de jogos presenciais. Num deles havia um notebook onde era preciso digitar o nome e marcar a caixa de “li e aceito os termos” para começar.

“Não li, não aceitei, mas cliquei como qualquer pessoa faria. E quando você apertava para jogar, você perdia: porque era justamente isso o jogo.”
— Amanda Siqueira

A pegadinha funcionou. Ela saiu de lá, nas próprias palavras, “totalmente traumatizada”, e com outro olhar sobre o que um conteúdo de conformidade poderia ser.

Esta assimilação só foi possível por ser um conteúdo real, que pode ser vivido no dia a dia, mas que bom que era em um ambiente seguro: um treinamento.

O terceiro jogo: Heróis da Integridade

A campanha mais recente nasceu de uma provocação simples: e se assédio moral, conflito de interesses e os demais riscos fossem tratados como vilões?

Isabela levou a ideia ao Fernando (Seacero) e descobriu que o jogo já existia no portfólio da i9Ação, com exatamente esse nome. “Foi muito específico e dentro do que a gente precisava”, contou.

O game coloca o jogador como herói de uma cidade invadida por vilões do compliance, com fases temáticas (lavagem de dinheiro, proteção de dados, contratos) e mecânicas de desafio com tempo, pontuação e ranking individual ou por equipe.

A cena do corredor, que abre este texto, foi uma entre várias. Em outra ocasião, uma colaboradora abordou Isabela no almoço: tinha passado a reunião inteira ansiosa para que acabasse, porque queria tomar café e voltar a jogar.

“Se fosse aquele treinamento que ela colocaria em 2x, eu tenho certeza que ela não estaria jogando no almoço dela.”
— Isabela Silveira

Alcançar quem não senta na frente de um computador

O Grupo Autoglass tem lojas espalhadas pelo país, e boa parte dos colaboradores não trabalha em escritório. Esse é o ponto do case que mais se aplica a outras empresas.

Como Isabela explicou, consultores de vendas e técnicos das unidades não vão abrir um computador para fazer um treinamento, mas todos têm celular. O jogo no celular eliminou a barreira e acabou com a divisão entre quem está na sede e quem está longe dela.

“Pode abrir o seu celular agora, onde você estiver, que você vai conseguir jogar.”
— Isabela Silveira

Amanda acrescentou outra vantagem do formato: a possibilidade de direcionar conteúdo por tema. Nem todo setor lida com contratos ou com homologação de fornecedores, mas o jogo permite democratizar esses assuntos, conectando-os a situações que qualquer pessoa reconhece, como contratar um serviço para a própria casa.

A liderança é a peça-chave

Para responder sobre o maior desafio do compliance, as duas concordaram: engajar a liderança.

“Se a liderança não abraça a causa, não tem muito o que você fazer. A liderança é o exemplo.”
— Isabela Silveira

Na prática, isso virou processo. Toda pessoa que assume um cargo de liderança na empresa passa por um treinamento de compliance, e o argumento usado ali é direto: ter um liderado em conformidade é vantagem para o próprio líder. Se alguém não respeita as regras da empresa, como confiar a essa pessoa uma entrega?

Amanda destacou o trabalho de comunicação interna que antecede cada ação: e-mails direcionados às lideranças explicando o que vai acontecer, para que o gestor entenda que não é perda de tempo quando ver um colaborador com o jogo aberto na tela.

O conselho: vá para a área de negócio

Como aproximar o compliance das pessoas? Quando o assunto foi esse, Isabela recorreu ao princípio japonês do Gemba, adotado pela metodologia da empresa: sair da mesa e ir até onde o trabalho acontece.

Ela contou o caso de uma colega, vinda da área jurídica, que travava uma despesa de pipoca e algodão-doce solicitada pela operação. Em vez de simplesmente negar, a colega foi passar um tempo com a equipe. Voltou entendendo o que aquilo representava na rotina daquelas pessoas.

“Não estou aqui para te travar, para te bloquear. Estou aqui para te trazer consciência, para te mostrar o caminho.”
— Isabela Silveira

Amanda completou com o que descreveu como uma mudança de posicionamento da área:

“Sempre dizem que o compliance é a área que fala não. Não deveríamos ser a área que fala não, e sim a área do ‘pode ser, vamos pensar juntos como fazer isso de um jeito que sirva para as duas partes’.”
— Amanda Siqueira

Quando o canal de ética virou plano de ação

Um exemplo concreto de compliance como parceiro do negócio: a área recebeu vários relatos vindos de uma mesma equipe. Não eram denúncias graves, mas insatisfações ligadas a metas e trilha de carreira.

Em vez de devolver o problema para a liderança resolver, o compliance sentou com a área de Desenvolvimento Humano e Organizacional e com os responsáveis, ouviu as pessoas e ajudou a construir a saída. O resultado foi um plano de ação de mudança de trilha de carreira.

“Não é chegar para a área e falar ‘olha, muita denúncia sobre isso, se vira’. É: deixa eu fazer parte dessa solução.”
— Isabela Silveira

Fernando conectou o relato ao eixo que vem defendendo: a migração do controle para a corresponsabilidade: da obrigação para o compromisso, do modelo top down para a participação, do treinamento obrigatório para a aprendizagem contínua.

O futuro do compliance

Para Amanda, o caminho é a soma de duas peças que sustentam qualquer desafio novo, e eles não param de aparecer, da inteligência artificial em diante:

“Avaliação de risco e cultura. Quanto mais eu avanço nesse sentido, menor é o meu risco.”
— Amanda Siqueira

Isabela fechou com um alerta que vale para qualquer programa:

“Não deixem que o compliance seja só um cumprimento de lei. Existe uma necessidade do negócio: olha os riscos que você tem, e eu estou aqui para te ajudar com esses riscos.”
— Isabela Silveira

Cinco pontos que valem para qualquer programa de compliance

O que fica deste episódio:

  • Continuidade importa mais que a novidade. O valor não está no primeiro jogo, e sim na sequência de decisões que faz o programa evoluir a cada ano.
  • Cada público precisa da sua linguagem. A operação, as áreas de negócio e a alta gestão têm interesses distintos, e o conteúdo precisa refletir isso.
  • Acessibilidade é estratégia. Quem não usa computador pode concentrar boa parte do risco operacional.
  • A liderança decide o resultado. Sem o exemplo e o apoio dela, nenhuma campanha se sustenta.
  • Relacionamento se constrói antes de ser necessário. É o que permite cobrar depois, sem atrito.

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▶️ Assista ao episódio completo no YouTube

📺 Veja também o primeiro episódio do Papo Play Compliance, com Pamela da Rocha Sella, da NovaAgri (Grupo Toyota Tsusho), sobre como o Código de Conduta Global virou jogo.


Acompanhe a i9Ação: Site · LinkedIn · Instagram @i9acao.gamificacao

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